‘Estripador’ opta pelo silêncio em tribunal

Um empregado de mesa, acusado de ter matado uma prostituta, em 2000, que começou esta segunda-feira a ser julgado por um tribunal de júri, em Aveiro, recusou-se a falar na primeira sessão do julgamento.

José Guedes, que assumiu ser o denominado ‘estripador de Lisboa’, negando-o mais tarde às autoridades policiais e judiciárias, está acusado pelo Ministério Público (MP) de um crime de homicídio qualificado e de outro de fogo posto.

O julgamento, que está a decorrer no Tribunal de Aveiro, sob fortes medidas de segurança, coordenadas pelo Grupo de Intervenção e Segurança Prisional, começou hoje, com cerca de uma hora de atraso.

Na sua exposição introdutória, a procuradora do MP Marianela Figueiredo disse pretender provar que o arguido nutre sentimentos de “ódio e repugnância” pelas prostitutas e que, por isso, matou Filipa Melo, de 18 anos, tal como terá confessado à jornalista Felícia Cabrita, que irá depor como testemunha de acusação neste processo.

O colectivo de juízes e os jurados, que estão a julgar este caso, foram ainda confrontados com fotos do cadáver de Filipa, exibidas pela procuradora do MP, que mostram a vítima deitada no chão numa posição de crucificada.

A estratégia da acusação passa pela enfatização das conversas que o arguido manteve com a jornalista, e de uma entrevista do filho de José Guedes, no âmbito de uma candidatura ao programa ‘Casa dos Segredos’, da TVI, na qual este disse ter um segredo que era o facto de conhecer a identidade do ‘estripador de Lisboa’.

Já a defesa procurou desvalorizar estas provas, afirmando que se tratou tudo de “uma brincadeira do senhor Guedes e do filho”, que “já o fez pagar com o bem mais precioso que é a liberdade, porque esteve preso quase um ano”.

“O arguido nunca esteve em Esgueira, onde decorreu o crime. Não há exame de ADN, não há testemunhas, não há nada que prove que o senhor Guedes teve alguma coisa a ver com este homicídio”, afirmou a advogada Poliana Ribeiro.

José Guedes optou por não prestar declarações nesta primeira sessão do julgamento e, segundo a sua advogada, ainda não está decidido se ele irá falar no tribunal.

“É uma opção que ainda está em aberto. Ainda não decidimos isso”, afirmou a causídica aos jornalistas, à saída da sala de audiências.

Nesta primeira sessão, foi ouvido o pai da vítima, que se constituiu como assistente no processo, e que disse ter visto a filha pela última vez, numa quinta-feira à noite, depois do jantar.

José Gonçalves Ferreira referiu ainda que Filipa não trabalhava e confirmou que, além do actual companheiro, com quem vivia, “andava com outros homens”.

Durante a sessão foram ouvidas mais duas testemunhas de acusação, nomeadamente um agente da GNR, que tomou conta do caso, e o antigo companheiro da vítima, Avelino Leite, que disse ter visto a Filipa pela última vez no café, depois de terem jantado em casa dos pais desta.

A testemunha contou ainda que, dias mais tarde, foi à GNR para comunicar o desaparecimento de Filipa, e os agentes levaram-no a uma obra para fazer o reconhecimento do seu corpo que, entretanto, tinha sido encontrado.

O antigo companheiro de Filipa admitiu ainda saber que ela se encontrava com outros homens, mas não levantava obstáculos.

O julgamento foi interrompido ao final da manhã e só recomeçará amanhã, às 14h00, para o arguido fazer uma nova perícia médico-legal, requerida pela defesa, que deverá durar toda a manhã.

Segundo o despacho de acusação, a que a Lusa teve acesso, em data incerta, entre 13 e 16 de Janeiro de 2000, José Guedes abordou a vítima no lugar da Póvoa do Paço, em Esgueira, com o pretexto de com ela manter relações sexuais remuneradas.

O alegado homicida terá conduzido depois a jovem a uma casa isolada em construção, onde lhe terá desferido diversos golpes na cabeça, usando um instrumento contundente não determinado, e ter-lhe-á apertado o pescoço, causando-lhe lesões fatais.

In:www.cmjornal.xl.pt