Sentimento de insegurança maior que realidade do crime

O sentimento de insegurança presente na população portuguesa é desproporcional face à realidade do crime no terreno, disseram à Lusa vários investigadores e especialistas, algo que tem diversos motivos como explicação.

O professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto Luís Fernandes declarou que “a maiores níveis de crime não correspondem necessariamente maiores níveis de insegurança e vice-versa” e isto porque “o sentimento de insegurança envolve mais dimensões do que apenas o crime”.

Já Eduardo Ferreira, professor na Escola da Polícia Judiciária e autor do livro “Crime e insegurança em Portugal”, afirmou à Lusa que “os desfasamentos entre perceções pessoais e sociais sobre um fenómeno social e a estrutura e evolução do mesmo são sempre inevitáveis”, sendo que “a capacidade para coligir a analisar informação detalhada e atualizada sobre a criminalidade em Portugal é muito limitada e obriga a generalizações e à criação de modelos descritivos e interpretativos incompletos e por vezes errados”.

“No âmbito da criminalidade, foi observado que, apesar do decréscimo na criminalidade violenta e grave registado durante o ano de 2011, o facto de estes crimes estarem enformados de contornos progressivamente mais violentos e mais graves, acompanhados de uma intensa mediatização, poderá vir a agravar o sentimento de insegurança das populações”, referiu o relatório de segurança interna do ano passado.

O especialista em Criminologia José Pires Leal explicou à Lusa que “o universo que mais aflige as pessoas são os crimes com vítima e é nessa matéria que se cria o fosso entre a criminalidade e a criminalidade participada que se espelha nas estatísticas”, que dependem em si da “representação social que cada cidadão tem sobre o posicionamento que cada um tem na sociedade”.

José Pires Leal, com experiência em funções policiais, recordou a experiência de um estudo comparativo que efetuou entre a linha de Sintra e Mértola: “Quando começava as entrevistas na linha de Sintra dizia que queria falar sobre o sentimento de insegurança e as pessoas começavam logo o discurso associando ao crime. Em Mértola, referiam-se aos atropelamentos”.

Os motivos inerentes às diferenças entre realidade e perceção variam, por isso, também em termos de espaço geográfico, como referiu Eduardo Viegas Ferreira, para quem “a falta de informação afeta inclusivamente a perceção que se tem sobre realidades mais locais — mesmo nas aldeias e vilas mais pequenas, a falta de informação, ou a manipulação da mesma para que sirva diferentes interesses pessoais ou sociais, são frequentes os modelos descritivos e interpretativos do crime que não aderem muito bem à realidade”.

A par desta ideia, Luís Fernandes realçou um estudo comparativo entre o Porto e o Rio de Janeiro, que conclui que as populações das duas cidades falam de insegurança de forma não muito diferente, apesar das distinções em termos de crimes praticados.

Por outro lado, de acordo com um exemplo dado por José Pires Leal, na Amadora, entre um “bairro de lata” e um bairro adjacente de classe média havia uma fronteira que fazia com que neste último o sentimento de insegurança fosse mais premente, por uma questão de desconhecimento do que estava do outro lado.

“A ameaça existe, porque efetivamente havia ataques de forma mais flagrante porque sentiam as pessoas daquele bairro [de classe média] como o ‘Outro’. É uma questão de como perspetivamos o ‘Outro’, alguém sobre o qual o respeito que temos é quase nulo”, explicou Pires Leal, sublinhando a relevância da questão bilateral do ‘Outro’.

In:www.dn.pt